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A experiência de organizaçao dos professores em uma escola de Brasil Convertir en PDF Version imprimable Suggérer par mail
Écrit par Alessandra M. Lazzari   
01-10-2007
Escolas Públicas: Minha ação e realidade de trabalho

Embora nunca tenha escrito em meu plano individual desenvolver uma ação no local de trabalho, sempre procurei estar atenta às coisas e fazer uma reflexão da história do local onde trabalho. E, numa das conversas com outros professores, nos intervalos e encontros nos corredores, percebemos a seguinte situação: estávamos descontentes com a atual gestão escolar, com a maneira como as coisas estão sendo resolvidas, as sugestões não eram bem vindas e às decisões eram tomadas pela direção sem a participação dos professores; estávamos descontentes com o tratamento diferenciado que alguns professores estavam tendo e outros não, com as fofocas entre professores porque as histórias não eram resolvidas; com a permissividade em relação aos alunos, que estavam mais fora da aula do que em aula.

Além disso, o acesso a qualquer material ou ambiente coletivo da escola era com autorização da direção, pois tudo era trancado com chave e/ou cadeado. Percebíamos que a direção fazia da escola algo como seu, e, por morar no bairro, somente a equipe se sentia capaz de fazer, de gostar, de cuidar.

Era o primeiro semestre de 2006. Em setembro do mesmo ano iria abrir o processo eleitoral para escolha da nova direção da escola (processo que se abre de 3 em 3 anos). Então resolvemos marcar um encontro fora da escola, com os professores que se mostraram abertos a fazer algo diferente.

Os encontros aconteciam na casa da professora de Educação Física, geralmente às terças-feiras, depois da seis horas da tarde, com a participação de 4 ou 5 professores. Os primeiros encontros foram marcados por conversas onde colocávamos nossas aspirações de como deveriam ser as coisas do dia-a-dia e a educação em sala de aula e, comparávamos com o que víamos acontecer, tentando entender porque e como poderíamos resolver. Daí surgiu a idéia de montarmos uma chapa. Na eleição, só elege-se o candidato para ocupar o cargo de diretor, os vices são escolhidos por ele, o que pode acontecer depois da eleição. No entanto, o grupo que se reunia, montou a chapa com toda a direção e, depois foi logo colhendo idéias com os outros professores e com os alunos, para montar o plano de ação que deve ser apresentado nos dias de campanha eleitoral para toda a comunidade.

Então, dos encontros saiu a chapa composta pelo candidato a diretor e as três vices, uma para cada turno; além do plano de ação com propostas concretas e um folder explicativo com as propostas. Foi combinado que a campanha seria feita dentro da escola, principalmente, pois os maiores interessados e beneficiados são alunos e professores. E, que não perderíamos tempo dando atenção às provocações pessoais, como eram de costume. Apenas responderíamos as questões ligas às propostas de trabalho.

Durante os quinze dias de campanha, conversas e debates com os alunos, pais e professores, nos reunimos para avaliar os passos e pensarmos juntos os argumentos para as situações vivenciadas. Foi um processo participativo, muito interessante, onde também pudemos ver coisas que achávamos que aconteceria somente a nível municipal, estadual ou nacional, como a compra de votos!

Sentíamos que a campanha não foi fácil (pois a outra chapa, da atual direção, passou de casa em casa, telefonou de pai em pai para pedir apoio, distribuiu bombons e tortas para os alunos, espalhou boatos), mas estávamos confiantes, pois nosso trabalho na escola, em sala de aula dava respaldo para alunos e professores apostarem na nossa capacidade e, o fato de nenhum professor da equipe morar no bairro e nem ter sido parte de outra equipe diretiva eram empecilho para as pessoas se renoveram.

Foi o que se confirmou no dia 18 de outubro de 2006. Nossa equipe venceu a eleição com uma diferença de 212 votos! Esta foi a primeira batalha. Escolas Públicas: minha realidade de trabalho Alessandra Maria Lazzari (julho de 2007)

Trabalho em duas escolas da rede pública estadual do RS, desde março de 2002. Ingressei através de concurso público que exigia curso Normal completo para inscrever-se. Desde então, trabalho quarenta horas semanais, (mais ou menos) remuneradas, em sala de aula, com alunos e outras duas horas diárias em casa, corrigindo avaliações e preparando aulas, não remuneradas. As reuniões e cursos de formação são realizados fora do horário de trabalho e sem ajuda de custos.

De manhã vou para a Escola José Generosi, num bairro afastado do centro 30 minutos de ônibus, onde de 2007 até 2009 estou vice-diretora. Nesse turno, a escola atende 300 alunos: 8 turmas de Ensino Fundamental – Séries Iniciais e 4 turmas de Ensino Médio. Á tarde atende 10 turmas de Ensino Fundamental – Séries Finais e a noite, 3 turmas de Ensino Médio.

As turmas de Séries Iniciais contam com uma professora unidocente (única para todas as disciplinas) e as demais turmas contam com um professor para cada disciplina (aliás este ano, a escola conviveu com a falta de professores até junho). Além disso, a escola conta com a equipe diretiva (diretor e vice), 3 merendeiras, um secretário e 2 funcionárias da limpeza. Neste ano, temos uma psicóloga atuando na escola, com salário pago por uma empresa privada.

O trabalho da vice-diretora está sendo o de garantir o funcionamento do turno: ver horários dos espaços coletivos – quadra, biblioteca, sala de vídeo, parquinho e laboratório de Ciências - , atender pais de alunos, fornecedores, telefonemas, situações de indisciplina, coordenar a merenda, passar matrizes no mimeógrafo, fazer cópias de xerox, dispor dos materiais para a aula que os professores necessitam, organizar e coordenar reuniões e conselhos de classe, preencher a burocracia solicitada pela Coordenadoria de Educação, cuidar do recreio...Ufa!

É uma atividade que exige disposição e boa memória, pois se anda de uma canto a outro sem parar e ouve-se muitos pedidos, “pega tal coisa para mim, procura o mapa tal, avisa fulano que a mãe não virá buscá-lo, liga pra mãe que sicrana está com muita dor de dente, a coordenadoria solicitou ficha funcional do professor tal, você já fez?.” Chega no final do turno e parece que você não fez nada.

As coisas na prática acontecem muito lentamente, uma vez que a burocracia toma conta de muito tempo (para qualquer mudança exige-se o preenchimento de formulários específicos), e as pessoas precisam vivenciar, aprender a democracia, pois este modelo de gestão está extremamente centralizado na direção. Nesse sentido, é um pouco (pra não dizer bastante) frustrante! ...

À tarde, vou para a Escola São Caetano, do outro lado da cidade . Esta Escola tem, mais ou menos, o mesmo número de alunos da escola na qual trabalho pela manhã, de séries iniciais até o Ensino Médio. Meu trabalho é alfabetizar vinte e quatro crianças em todas as disciplinas, especialmente Português e Matemática. Conto com mais duas colegas que trabalham com a mesma série: Carmen e Sandra, com quem troco idéias e material. Gosto muito deste trabalho, porque aprender a ler e escrever é fazer magia, encanta, é significativo, é identidade e expressão do ser humano.

A escola não impõe nenhum método, nem acompanha o planejamento. As professoras é que, nos curtos espaços, trocam opiniões, dividem preocupações e buscam melhorar o trabalho. Percebo que é cada vez mais sério as dificuldades que são apresentadas na escolas e esta não está preparada, nem para receber nem para resolver as situações.

A escola vê-se obrigada a assumir tarefas que seriam dos pais para poder fazer o seu trabalho que é de oportunizar o acesso ao conhecimento produzido, desenvolver habilidade, criar, pensar... essa situação me angustia!

Alessandra Maria Lazzari, brasileira, militante da JOC em Brasil

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