 Em uma importante contribuição para o Site da JOCAmérica, a JOC do Brasil nos apóia com um texto de Adelson Goís sobre a realidade da juventude e uma visão sobre os desafios para a Igreja e para a JOC, em seu objetivo de formar e organizar a jovens no mundo.
"Escrevo esta matéria com o desejo de que possa servir como idéia de uma carta aberta, para a JOC, a Igreja, a Mídia e a sociedade em geral. Que o conjunto da nossa experiência que não são apenas de avanços e de flores, nesses 60 anos de JOC oficialmente constituída possam contribuir com este novo desafio que a igreja se propõe"...
SÃO PAULO -A Igreja Católica brasileira acaba de lançar as estratégias para atrair mais jovens. O documento, aprovado nesta segunda-feira pela assembléia dos bispos, em Itaicí, é o primeiro feito pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) exclusivamente dedicado à juventude. De acordo com o último Censo, o Brasil tem 34 milhões de jovens entre 15 e 24 anos, o equivalente a 20% da população. Os jovens engajados em grupos católicos são entre 1 e 2 milhões em todo o país.
JAC, JEC, JIC, JOC e JUC já foram as siglas dos jovens católicos do país nos anos 60, mas agora eles andam arredios (*).
A intenção da Igreja é criar condições para ampliar a ação dos jovens em suas trincheiras e afastar a idéia de que ser católico e se afundar em orações em seus templos. [...] A proposta não é apenas enfiá-los dentro da Igreja, é fazê-lo ser fermento na massa.
Cleide Carvalho, Publicada em 07/05/2007. O Globo On-line
(*) Arredio: Que vive longe dos lugares onde freqüentava ou das companhias que tinha. Que se afasta do trato ou do convívio social.
Afastado, apartado. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.
Quando assumimos a tarefa de escrever na Região Sudeste essa edição do Boletim Militante fiquei me perguntado qual poderia ser a minha contribuição, sobre o que poderia escrever. Meu desejo era escrever um pouco do Ver e do Julgar que fui acumulando no decorrer destes quatro a-nos em que estive na Coordenação Nacional, contribuindo com um olhar para fora da JOC no que se trata da análise da Realidade da Juventude. Estive perdido durante alguns meses sobre como poderia ser este texto, e creio que essa notícia do jornal O Globo me deu o mote que faltava.
Escrevo esta matéria com o desejo de que possa servir como idéia de uma carta aberta, para a JOC, a Igreja, a Mídia e a sociedade em geral. Que o conjunto da nossa experiência que não são apenas de avanços e de flores, nesses 60 anos de JOC oficialmente constituída possam contribuir com este novo desafio que a igreja se propõe. Talvez estejamos arredios, distantes da igreja e de outros
espaços, talvez estejamos onde sempre estivemos, firmes na nossa opção. Mais arredia, talvez, esteja à realidade que empurra cada vez mais os Jovens Trabalhadores para condições desumanas, conforme não cansam de mostrar os noticiários, para a cadeia ou para a morte.
Chegando por volta de 1935 por diversos caminhos, a JOC cresceu e ganhou contorno nacional. Muitos padres e leigos participaram desta trajetória, vencendo desafios como à extensão territorial, o preconceito dos que associava a ação da JOC ao comunismo, o espaço para que jovens operários pudessem construir e coordenar seu próprio movimento. Vamos crescendo, se desenvolvendo, oficializada e reconhecida em 1948 com a presença do Pe. Cardijn, seu Fundador. Muitas foram as fases que a JOC viveu e segue vivendo, um movimento que tendo como instrumentos o Evangelho e o método Ver-Julgar-Agir, chegou a ter mais que 25.000 membros nas diversas paróquias e seções locais, desenvolvendo diversas ações, serviços (Lazer e Recreação, Orientação Profissional e Sindical) e campanhas (pela Habitação, pela Proteção ao Menor).
A partir a de 1960 a sociedade, a JOC, e a igreja mudaram, a JOC passa refletir que são necessárias mudanças mais profundas na nossa realidade. Ela procura ir além da evangelização,
fortalecendo o seu caráter operário. Incentivava aos seus membros que se engajassem fortemente nos sindicatos, associações pastorais e outras ações políticas, tendo uma análise crítica e sempre levando consigo sua fé, que era realimentada na Igreja e também pela Teologia da Libertação.
Passamos por toda a ditadura sendo perseguido, e com isso diminuiu o nosso tamanho, mas não nossa fé. Nosso compromisso com a JOC nos manteve vivos e, na década de 80, ressurgimos no amanhecer do
movimento operário que tomava seu lugar não só nas manifestações e greves, mas na participação política. Atuamos na organização de diversas oposições sindicais, associações e em outros espaços que ajudaram dar uma nova cara à “democracia” que estava surgindo.
Desde a década de 90 trabalhamos na busca de novas formas de atuação, organizando jovens dispersos e que não tem nenhum tipo de participação política. Este tem sido o desafio que nos
deparamos cotidianamente: ampliar ação da Juventude, possibilitando que estes compreendam a sua realidade, através da análise critica, de pesquisas e estudos – Ver. A partir dos nossos sonhos, das nossas aspirações, dos nossos valores (de solidariedade, ecológicos) a luz do evangelho, -Julgar, e a Agir transformando sonhos em novas realidades. Valorizando as pequenas ações de Jovens trabalhadores, desde simples reivindicações como um orelhão, até a implementação de complicadas
políticas públicas.
Mais do que refletir a sua realidade, os jovens querem intervir nela. Mais do que conversar sobre os problemas que vivenciamos, buscamos desenvolver ações que transformem a nossa realidade. Na JOC em suas diversas fases desenvolvemos formas para dar importância aos problemas da Juventude. Hoje estes são enormes e ganharam dimensão nacional. Há algum tempo começaram surgir pesquisas, e o poder público começa a engatinhar nas questões de políticas públicas para a juventude.
Mas aqui encontramos o grande desafio. Como enfrentar de verdade os grandes problemas que afetam a Juventude: desemprego, violência e falta de acesso à universidade. Todas têm como questão de fundo uma política econômica e social que precisa ser transformada, a fim de encontrarmos soluções reais e concretas. A própria organização política precisará mudar. Criar espaços de participação política nos quais de fato a juventude possa ser mais que ouvida. Que tenha espaço e recursos para se desenvolver e criar.
Politizar os jovens significa além de dar-lhes cursos. É dar autonomia para que eles possam construir um novo mundo com novas relações. Politizar significará também que os jovens deverão agir, pois esta é o melhor tipo de formação.
Novos espaços, que vão além de reuniões e debates, os instrumentos em que a juventude faça e perceba um resultado são importantes. Seja através do teatro, do cinema, da produção comunitária, da reivindicação de saneamento básico ou de acesso à universidade, desenvolvidos e implementados pelos próprios jovens, cabe a JOC, a Igreja, e toda a sociedade fazer com que isso aconteça. Ser fermento na massa foi à opção que a JOC assumiu, assim como o desafio da opção pelos pobres, da evangelização para além das igrejas, nos locais de trabalho: fábricas, comércios, bancos, escolas.
Pelo desafio de construir o Reino de Deus aqui, proporcionando que as pessoas redescubram o seu valor e o valor da palavra Dignidade. A Igreja também tem a tarefa de politizar os jovens, para que desenvolvam ações e descubram que ser católico vai muito além das celebrações e missas. Dessa for-ma, a palavra evangelização ganha uma dimensão maior. Este é um caminho que a JOC vem construindo no decorrer da sua história. Penso que temos algo a contribuir neste grande desafio.
P.S.: É importante ressaltar que, mesmo não sendo parte intrínseca da Igreja, mantemos ligação com diversas paróquias do Brasil, desenvolvendo trabalhos em conjunto com diversas pastorais,
além de contarmos nacional-mente com o apoio de diversos colaboradores leigos, padres e bispos, que confiam no desafio de formar e organizar os jovens sobre a luz dos valores cristãos.
Adelson Góis de Almeida é militante e fue membro da Coordenação Nacional da JOC Brasilera no quadriênio 2003-2007.
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